"Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo."
Chico Buarque
De medos e ousadias
Em sua obra, Chico Buarque vai revelar ao leitor uma menina que, ao confrontar-se com o lobo, arrebenta as cordas da opressão, do controle e se liberta do imobilismo. Nesse sentido, vale citar ZILBERMAN (2003), que, examinando a produção nacional para crianças, destaca:
O processo é mais complexo quando se trata de uma literatura de denúncia social. Trata-se, neste caso, de incorporar dados à interioridade do livro infantil, que os renegou por muito tempo.
Por isso, sacode com as estruturas literárias, que precisam ser acomodadas à nova situação. (p.191)
Percebe-se também, na nova história, uma inversão do modelo estrutural do conto de fadas. Nesta recente montagem, a heroína enfrenta um conflito da modernidade e, para resolvê-lo, não recebe ajuda de nenhuma entidade mágica, mas fá-lo sozinha.
O conto avançou séculos em séculos, o que confirma a metamorfose literária que acompanha os tempos.
O controle do comportamento da criança, a relação de mando, a ausência de atitudes decididas, o isolamento, o encontro, a coragem, o poder da palavra são fatos destacados em Chapeuzinho Amarelo --- mas destacados em contraste com as atitudes conformadas e passivas da antiga personagem.
É porém o medo o tema central. No início, a jovem se nos apresenta como extremamente triste, angustiada, que sofre de insônia, pois sente medo de tudo e esse medo a impede de viver enquanto criança, afastando-a do contexto social.
Ao ler o novo título, o leitor busca de pronto na memória a história mundialmente conhecida. Diferente do conto original, porém, a menina é caracterizada pela cor amarela, o que desperta o leitor para rastrear um diferencial temático: amarelo por quê?
A mudança do nome da menina torna-se portanto significativa, pois o amarelo significa na nossa cultura o medo, o desconforto, a aflição do desconhecido; já o vermelho entremostra a "sexualidade", a sedução, o fascínio secreto e proibido do outro.

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