domingo, 1 de julho de 2012

INTUIÇÃO... IMPULSO INFANTIL... 




Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente.

O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente?

Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura.

Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”
 





Clarice Lispector

sábado, 30 de junho de 2012


Atividade de percepção sonora com o filme "O Som do Coração"



Introdução
Filho de pais músicos, o menino Evan Taylor cresce em um orfanato e não conhece sua origem. Apesar disso, ele ouve música em todos os lugares e acredita que ela seja uma mensagem de sua família. Decide então sair em busca de sua história. Apesar desse lado de fantasia, o mais interessante é, contudo, destacar os pontos da trama que mostram o garoto escutando diferentes ruídos da cidade, que podem se transformar em música. "Os alunos precisam aprender a escutar os variados sons que passam despercebidos ao seu redor", diz a professora Valéria Caram, do Colégio Pueri Domus, em São Paulo. 

Objetivo 
Discriminar sons da natureza, da cidade e da sala de aula. 

Conteúdo 
Sons do ambiente. 

Trechos selecionados 
Cena que mostra o garoto fugindo do orfanato em direção à cidade (21m07s a 22m07s). Trecho em que ele entra na cidade e começa a prestar atenção nos sons (22m55s a 31m05s). Cena em que o garoto pega um violão e, sem nunca ter experimentado o instrumento, começa a tocá-lo (41m43s a 44m25s). 

Atividade 
Exiba os trechos do filme. Leve as crianças a um parque, um bosque, uma praça ou qualquer área verde próxima à escola para que escutem os sons da natureza e, depois, a algum local urbanizado, para que fiquem atentas aos ruídos das ruas. Volte para a sala de aula e chame a atenção de todos para as vozes dos colegas. Destaque como vários sons às vezes passam despercebidos, como se fossem apenas parte do ambiente. Depois, faça uma música com as crianças. Peça que elas tentem reproduzir com instrumentos de percussão ou outros que tiver disponíveis os sons que ouviram durante aquela aula. 

Avaliação 
Observe quais os sons as crianças ouviram e avalie de que forma elas os reproduziram.






Alfabetização: como trabalhar linguagem e reflexão sobre o sistema juntos

Saiba como articular as práticas de leitura e de produção de texto à reflexão sobre a escrita durante projetos e sequências didáticas

"O que Chapeuzinho Vermelho pergunta primeiro ao Lobo: que olhos grandes você tem ou que orelhas grandes você tem?", indaga a professora após apresentar o conto à turma do 1º ano. Resolver esse problema é um grande desafio para quem está no início da alfabetização. Afinal, responder com segurança exige voltar ao texto e buscar as palavras olhos eorelhas, que começam e terminam com as mesmas letras. Propostas como essa, que tem por objetivo levar à reflexão sobre o sistema de escrita durante a leitura e a produção de texto, ainda são raras nas nossas salas de aula. 

A tarefa de pensar sobre o funcionamento da escrita tem ficado restrita às atividades permanentes, com listas e textos memorizados, como cantigas e parlendas. Nada contra elas - que podem e devem continuar na rotina. Mas por que não aproveitar os momentos em que as crianças estão lendo ou produzindo um texto sobre um animal na aula de Ciências, por exemplo, para também levá-las a pensar sobre os aspectos do sistema alfabético e as relações grafofônicas? "Combinar a reflexão sobre a escrita com as práticas sociais de leitura e produção de texto é muito mais efetivo", diz Beatriz Gouveia, coordenadora de projetos do Instituto Avisa Lá, em São Paulo. 

Uma boa proposta de alfabetização requer planejamento e pressupõe saber como os alunos escrevem, organizar a rotina em projetos, sequências e atividades permanentes e escolher bons materiais de leitura e estudá-los. Além disso, não podem faltar em sala as letras do alfabeto, a lista de nomes dos estudantes, livros e os textos da garotada. Assim, na hora de escrever, todos poderão se apoiar em palavras conhecidas ou verificar em fontes oficiais se as antecipações feitas estão corretas. 

Veja um exemplo: os alunos leem a capa de um livro ilustrado com um elefante e cujo título éAnimais. Ao ler, eles antecipam - com base apenas na imagem - que a obra se chama Elefantes. Para que se apoiem no texto, você pergunta qual a primeira letra da palavra elefantes. Alguém responde "E", volta ao texto para ver se está correto e se depara com o A. "É como um jogo: se a antecipação não é adequada para resolver o problema, é preciso procurar outras pistas", explica Diana Grunfeld, presidente da Rede Latino-Americana de Alfabetização, na Argentina. 

À medida que avançam em suas hipóteses de leitura e escrita, os estudantes desenvolvem, com base no trabalho do professor, alternativas de verificação cada vez mais sofisticadas. Inicialmente, diferenciam as figuras dos textos. Depois, imaginam que só é possível ler algo com mais de três letras. Por fim, fazem análises qualitativas, verificando principalmente as letras iniciais e finais de cada palavra. A todo momento, devem estar tranquilos para escrever como sabem e cientes de que terão todo o ano para aprender. 

Para que você possa ajudar ainda mais a turma nesse trajeto, nas páginas seguintes, mostramos na forma de história em quadrinhos seis atividades de reflexão sobre o sistema inseridas em situações de leitura e de produção de texto. Elas fazem parte da sequência didática A Diversidade dos Animais, elaborada pela equipe de Práticas de Linguagem da Divisão de Educação Primária de Buenos Aires, na Argentina. A intervenção do professor, como você verá, é essencial para que o aluno compreenda como se escreve.

Localizar informações

Peça que os alunos verifiquem se o que eles escreveram sobre as partes do corpo de um dos animais estudados em sala corresponde ao que informa a enciclopédia. Para isso, mostre a eles a página que contém as informações pertinentes.
Localizar informações. Ilustração: Anna Cunha
Ao pedir algo específico, a educadora possibilita aos pequenos distinguir a imagem e o texto. Localizada a legenda, o desafio é encontrar uma parte da cadeia gráfica, ajustando o falado ao escrito, as letras e partes de palavras conhecidas. Nesse jogo entre a possibilidade de antecipação e a necessidade de verificação, a turma vai aprendendo a ler sem abrir mão do significado dos textos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Chapeuzinho Amarelo: medos e anseios infantis.




"Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO. 
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo. 
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo." 
Chico Buarque 


De medos e ousadias 


Em sua obra, Chico Buarque vai revelar ao leitor uma menina que, ao confrontar-se com o lobo, arrebenta as cordas da opressão, do controle e se liberta do imobilismo. Nesse sentido, vale citar ZILBERMAN (2003), que, examinando a produção nacional para crianças, destaca: 

O processo é mais complexo quando se trata de uma literatura de denúncia social. Trata-se, neste caso, de incorporar dados à interioridade do livro infantil, que os renegou por muito tempo.
Por isso, sacode com as estruturas literárias, que precisam ser acomodadas à nova situação. (p.191)

Percebe-se também, na nova história, uma inversão do modelo estrutural do conto de fadas. Nesta recente montagem, a heroína enfrenta um conflito da modernidade e, para resolvê-lo, não recebe ajuda de nenhuma entidade mágica, mas fá-lo sozinha. 

O conto avançou séculos em séculos, o que confirma a metamorfose literária que acompanha os tempos.

O controle do comportamento da criança, a relação de mando, a ausência de atitudes decididas, o isolamento, o encontro, a coragem, o poder da palavra são fatos destacados em Chapeuzinho Amarelo --- mas destacados em contraste com as atitudes conformadas e passivas da antiga personagem. 

É porém o medo o tema central. No início, a jovem se nos apresenta como extremamente triste, angustiada, que sofre de insônia, pois sente medo de tudo e esse medo a impede de viver enquanto criança, afastando-a do contexto social.

Ao ler o novo título, o leitor busca de pronto na memória a história mundialmente conhecida. Diferente do conto original, porém, a menina é caracterizada pela cor amarela, o que desperta o leitor para rastrear um diferencial temático: amarelo por quê? 

A mudança do nome da menina torna-se portanto significativa, pois o amarelo significa na nossa cultura o medo, o desconforto, a aflição do desconhecido; já o vermelho entremostra a "sexualidade", a sedução, o fascínio secreto e proibido do outro.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Não tarda e a criança cresce


“Bela é a tarde, e noites há belíssimas; mas a frescura da manhã não tem parelha na galeria do tempo”. (Machado de Assis, 1895)


Ah! essa criança carinhosa, que se joga em nosso colo, se esparrama em nosso corpo, nos acaricia a cabeça, nos despenteia os cabelos. Aperta-nos as bochechas, enfia a mão em nossa boca, mexe no bico de nossos seios e busca a quentura do nosso corpo. Sim, o corpo é o espetáculo a ser visto, exibido e sentido por ela dia-a-dia...


Pedinte de afeto e repleta de carências, exige presença. Não nos permite sair à noite e pede para ficarmos “só mais um minuto”, sempre antes de apagarmos a luz do quarto. Curiosamente, não só lhe basta saber que a amamos, é preciso provar isso pela presença...


Espaçosa, brinca de esconde-esconde, de trepa-trepa, de amarelinha e se sente no mais absoluto paraíso celeste quando a levamos ao parque. Todavia, se todo o espaço do universo lhe fosse ofertado, ainda assim seria pequeno...


Levada da breca e exibida, xinga, morde, unha, mostra a língua, fala palavrão e desobedece. Esconde coisas, fantasia, mente e se joga no chão de raiva e ódio, quando ouve um não. Entendamo-nos: sua vida é muito mais de erros do que de acertos. Todavia, não há crescimento sem erros. Nunca...


Ah! essa criança travada, que estala um dedo no outro, querendo se lembrar de uma certa palavra que não lhe vem à boca. É bom lembrar: a mente funciona em descompasso com a sua expressividade; nessa, a intensidade parece estar mais nos sentimentos...


Manhosa, pobre coitada, não quer dormir, pois dormir significa parar de brincar, e não poder brincar tem tons de prisão e de asfixia. Para ela, a felicidade se resume no jogo, na bola, na boneca e, depois e sempre, na hora do recreio...


Tranqüila, adormece como um anjinho no nosso colo, no ônibus, no carrinho, ou na sala de visitas. Sim, o sono é seu companheiro inseparável e inesperado, um momento absoluto de paz...para todos...


Mal-educada, sem cerimônias e chata, invade o nosso quarto, à noite, pela manhã, ou a qualquer hora do dia. Come com a boca aberta, responde hostil, desrespeita o porteiro, ofende a dona da cantina e brinca com os limites. Tão preciosos, os limites, duros e necessários, elas os pede, posto que modos e maneiras não vieram nem consigo, nem em manuais de auto-instrução...


Ah! essa criança dramática, que quer tudo para si e não sabe dividir. Chora só porque não lhe demos uma bala, abrindo um berreiro, com lágrimas e pompa, como se estivesse frente a uma “desgraça” ocorrida. Oh! santo egocentrismo dos diabos...


Absorta e sonhadora, pede para repetirmos um sem-número de vezes a mesma história e a ouve como se inédita fosse. Repetir é o primeiro modo de a mente ter certezas! Embalando os seus sonhos, todos os deuses e divindades celestes entram em seu coração com uma história contada...


Ama obcecadamente o pai e a mãe e não aceita vê-los discutindo, ao léu ou à mercê das circunstâncias, pois não as entende. Incomoda-se de não os ter por perto, nem aceita responder a uma costumeira pergunta sobre qual dos dois ama mais. Para qualquer humano são necessários o pensamento e o sentimento; a criança só tem esse...


Gulosa, arregala os olhos, quando canta parabéns e olha para aquele bolo... para aquele brigadeiro, nunca sabendo bem qual deles escolher; depois, come os dois! É que os seus olhos são maiores do que a sua boca...


Ah! essa criança ansiosa, que, em um minuto, já se esquece do que lhe pedimos, da bronca tomada ou da frustração sentida. O mundo? Só aquele que vê e o que se descortina naquele exato momento, pois memória e lembranças lhe são poucas...


Inquieta, irrequieta, agitada, traquinas, turbulenta, desassossegada, não consegue parar um minuto. Dizem as más línguas ter um bicho carpinteiro no corpo...


Questionadora, constantemente guarda uma pergunta ou um pequeno comentário, e nos deixa perder a paciência, tirando-nos do sério com os seus filosóficos porquês. Responda-os com paciência, pois indecifráveis são as razões que os determinam...


Medrosa, necessita-nos por perto, pois se atemoriza no escuro, morre de medo de um palhaço, demora uma eternidade para entrar no mar e se afasta de um cão, escondendo-se por entre as pernas do pai. Antes só tivesse medos iguais a esses pela vida afora...


Ah! essa criança sagaz, que nos faz corar de vergonha quando pergunta: “papai, como foi que eu vim ao mundo?” E nos deixa em palpos de aranha quando exclama, questionando: “mas você colocou o pipi dentro da mamãe?!” A bem da verdade, os impuros somos nós...


Sem a mínima cerimônia grita: “mãe já cabei” e nos faz voar para o banheiro; ou: “mãe tô com sede” e nos faz ir para a cozinha; ou: “pai vem aqui” e nos faz aterrizar na sala. Dona que é do mundo, possui muitos ‘criados'...


Porquinha, volta do parque toda suja, como se tivesse voltado de uma guerra. Aí é o campo de batalha em que ela trava a mais séria luta para o seu desenvolvimento. O parque! Ora, pois, o parque, e nunca um shopping, é o melhor palco para crescer...


Oscilante, cai, esfola o joelho e abre o maior berreiro; no entanto, quando a pegamos no colo, uma brincadeirinha só de nossa parte, a faz rir e em seu semblante misturam-se, simultaneamente, dor e alegria, lágrimas e sorrisos. Como é duro não ser dono das próprias sensações...


Ah! essa criança mágica, que começa a se alfabetizar e, em um passe de feitiçaria, mistura letrinhas e mais letrinhas e sai por aí a ler a escrever. Verdadeira revolução em sua vida mental, bem-aventurado seja esse processo, o mais suntuoso de seu desenvolvimento...


(Maravilhosas, porém jogadas por nós em meio à rua, ficam algumas a limpar os vidros do nosso carro, fazendo malabarismos com bolinhas ou vendendo balas de hortelã. A maldição das desigualdades invade a metrópole e não há como vê-las nessa ocasião, sem perdermos o sono. Se a divisão é a última e a mais difícil operação a ser aprendida na Matemática, também o é na vida.)


Ah! essa criança onipotente, que não aceita as brigas acirradas dos pais. O amor deles, espécie de dádiva oferecida a ela pelos céus, precisaria ser perpetuado, senão pela família, ao menos pelo respeito. Respeito não é chegado a fazer contas, menos ainda a de subtrair. Lamento ser esta uma lógica tardiamente compreendida pelos adultos...


Não tarda e a criança cresce!


Aí está a pena da vida. Passa muito depressa este tempo surpreendente, caprichoso, perigoso e o mais encantador entre todos os que há. Síntese de nossa raça, orgulho da natureza, obra-prima das divindades. Ainda hoje, como outrora e sempre, não tarda e a criança cresce. E, como a contrariar as leis e a liturgia da existência, vai-se, e nos deixa órfãos e sozinhos.


Paulo Afonso Caruso Ronca 

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Onde vivem os monstros...

Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are), o livro de Maurice Sendak, é pra ler em dois minutos. Na obra de 1963, econômica no texto e com ilustrações de página inteira, o menino Max, é mandado pro quarto depois de fazer malcriações. Na cama, sem jantar, ele começa a imaginar um mundo onde pode reinar em paz. Até perceber, porém, a "vontade de estar em algum lugar onde alguém gostasse dele de verdade".




A concisão de Sendak torna-se, nas mãos de Spike Jonze (Adaptação), uma discussão sensível, verborrágica e um tanto depressiva sobre a infância e amadurecimento.



A adaptação do próprio diretor, ao lado do romancista Dave Eggers, busca significados e extrapola cada página do livro. Razões para a rebeldia juvenil de Max (Max Records) são criadas, assim como paralelos entre o mundo real e a terra dos monstros. Cada criatura ganha personalidade bem definida - manifestações das facetas do próprio Max, comuns à maioria das crianças - e intérpretes à altura.



Carol, vivido por James Gandolfini (A Família Soprano), é o principal deles. Representa a confusão egocêntrica e impetuosidade de Max e, não por acaso, torna-se o favorito do menino. A jornada é fruto justamente desses sentimentos. Gandolfini é o maior trunfo de Onde Vivem os Monstros e a cena em que Carol carrega Max nas costas um retrato do próprio filme. A voz anasalada, em que fragilidade, angústia e poder caminham juntos o tempo todo, é Tony Soprano pura.



Ao lado de Gandolfini estão Paul Dano (o bode carente Alexander), Catherine O'Hara (a agressiva Judith), Forest Whitaker (o amável e criativo Ira), Michael Berry Jr. (o contemplativo e melancólico Touro) e Chris Cooper (o solícito e companheiro Douglas). Completa o elenco Lauren Ambrose (a Claire de A Sete Palmos) como KW, o único sentimento externo à Max - o materno.



As relações funcionam de maneira excepcional. Cada diálogo entre os habitantes da ilha, uma tentativa infantil de compreender mudanças. Como o livro, Onde Vivem os Monstros é uma metáfora de crescimento interessante.



Enquanto fica nesse campo das sugestões, o filme é ótimo. O roteiro, porém, tem problemas. Talvez acreditando que ele funcionaria para crianças (não funciona, é adulto demais), Jonze parece ter sentido necessidade de explicar demais certos aspectos. Pegue a cena em que Max inventa à mãe a deprimente história do vampiro que mordeu um prédio, por exemplo. Serve como desnecessária introdução à criatividade do menino, algo que já estava claro apenas observando seu quarto, suas brincadeiras. Sendak precisou apenas de uma ilustração para mostrar isso. Jonze, verborrágico, lança mão de minutos de película.



Ao menos acompanha esse falatório constante uma direção de fotografia inspirada. Lance Acord repete a parceria de Quero Ser John Malkovich e Adaptação com Jonze, dando uma poética qualidade de filme independente ao longa de grande estúdio. Já a alardeada trilha sonora de Karen O., ex-namorada do cineasta e vocalista do Yeah Yeah Yeahs, ainda que excelente pra ouvir como álbum, é um pouco opressiva durante o filme. Funciona muito melhor durante as (poucas) cenas de ação - como a da "bagunça geral" e a guerra de bolas de lama - do que sobrepondo-se aos diálogos. É informação demais.



Enfim, é um filme esquisito. Infantil indie norte-americano pra adultos feito por um estúdio major, a Warner Bros. E vale lembrar que Jonze precisou de um ano a mais - e mais dinheiro - para terminá-lo depois que os produtores pediram a ele que equilibrasse melhor sua visão como cineasta e as necessidade de mercado, algo que oferecesse entretenimento ao grande público. Será que as explicações desnecessárias partiram dessa demanda? Ou o filme era simplesmente esquisito demais? A resposta deve se perder na história do cinema, já que o corte anterior não deve ver a luz do dia. Só o que se sabe mesmo é que, goste ou não, os monstros agora vivem também nas telas.

A influência dos educadores na vida pessoal dos alunos pode ser mais forte do que aparenta e gerar frutos permanentes

Mr. Holland: Adorável Professor.
Ao reger os alunos, o protagonista rege vários destinos ao mesmo tempo.
FILME: Mr. Holland: Adorável Professor, dirigido por Stephen Herek, com Richard Dreyfuss e William H. Macy, 1995.



A HISTÓRIA: Em 1964, um músico (Richard Dreyfuss) resolve começar a lecionar para ter mais dinheiro e assim se dedicar a compor uma sinfonia. Mas os alunos se mostram pouco interessados e as coisas se complicam quando a esposa dele da luz a um bebê surdo. Para poder financiar os estudos especiais e o tratamento do filho, o professor se envolve cada vez mais com a escola, deixando de lado seu sonho de tornar-se um grande compositor.



QUEM INDICA: o jornalista Paulo Maffia. “É um filme sensível, que mostra que Educação não é só livro e caderno, mas é formar e transformar seres humanos. Esse professor de música toca a vida das pessoas de forma diferente.”



POR QUE VER: “Você percebe que diante de todas as adversidades, diante de toda uma vida, é possível deixar uma história, uma construção. Às vezes, por mais tola e boba que pareça nossa influência na vida das pessoas, ela é contundente, muda mesmo”, diz o professor de biologia Leandro Alcerito, do Colégio Vértice, de São Paulo.



QUE BOM EXEMPLO TIRAR: “Numa das primeiras aulas, o professor coloca uma música dos anos 60 para tocar, algo bem importante naquele momento histórico. E depois chega ao piano e toca uma peça erudita para mostrar como as duas são parecidas. Isso mostra que o currículo tem de estar em consonância com o seu momento. É um saber organizado, construído ao longo do tempo, mas o educador tem de fazer diálogo com o que está acontecendo. Não adianta eu querer falar de música se não faço idéia do que é que meus alunos estão ouvindo. Eu preciso gostar? Claro que não. Mas tenho de saber”, diz Zilton Salgado, professor de artes, filosofia e sociologia do Colégio Vértice.